Un réel pour le XXI sciècle
ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE
IXe Congr�s de l'AMP � 14-18 avril 2014 � Paris � Palais des Congr�s � www.wapol.org

A galinha d'Angola pôs a Morte pra correr (lenda africana*)
Marizilda Paulino

No dia em que a mãe morreu ela pediu um sessão antes do enterro. Saiu do velório, veio direto pra consulta. Ao vê-la entrar em minha sala, a surpresa: trouxera seu bichinho de estimação – uma galinha d'Angola. Recebi ambas.

Ela, ao perceber meu espanto, tentou me tranquilizar dizendo para eu não ter receio algum – a galinha iria ficar quieta, tranquila em seu colo. Não iria sair voando, ciscando por lá... Assim foi.

Os ruídos emitidos pela galinha ("tô fraco, tô fraco, tô fraco..."), esses gemidos cantados tomaram o lugar de seus soluços. A galinha falava por ela, que afagava sua cabeça carinhosamente a cada gemido esganiçado.

A galinha tinha sido presente da mãe numa provocação declarada – duvidava que ela fosse capaz de cuidar, de aguentar esse bichinho arisco, barulhento e trapalhão. Para não se desgrudar da galinha, naquele dia veio com o motorista, e carregou no colo, o tempo todo afagando, seu bichinho de estimação.

Ela, que queria engravidar, achou que com a morte da mãe isso agora poderia acontecer.

Marizilda Paulino
EBP, São Paulo


* Diz uma lenda africana que a Morte, instalada em uma cidade, assustou-se e abandonou a cidade ao se deparar com a oferenda que seus habitantes fizeram a Oxalá - de uma galinha preta salpicada com giz branco.